Shackleton, um líder de verdade! – 2 vídeos

Certa vez fui convidado para proferir uma palestra sobre liderança a dirigentes de um órgão público. Iniciei a apresentação falando dos principais conceitos sobre o tema. Em seguida, citei Warren Bennis, um autor que tem uma visão moderna da liderança, e também Sun Tzu, um filósofo chinês que viveu por volta de 500 a.C., cujas concepções continuam surpreendentemente atuais. Depois, procurei apresentar vários exemplos de pessoas que atuaram nas mais diversas áreas, do esporte aos negócios, e se destacaram pela capacidade de liderar.
Ao final, um dos participantes veio falar comigo. Elogiou a palestra e perguntou se eu já havia lido sobre Shackleton. Refleti por uns instantes (minha memória para nomes não é muito boa), mas definitivamente eu não conhecia Shackleton.
- Então você precisa ler, disse-me ele.
Resolvi aceitar seu conselho. Comprei o livro “Shackleton: uma lição de coragem”, de Margot Morrell e Stephanie Capparell, Editora Sextante, e conheci a história deste formidável explorador. É curioso que Ernest Shackleton seja reconhecido e admirado por um empreendimento que fracassou: a expedição à Antártida, de 1914 a 1916, a bordo do navio Endurance, que afundou antes de chegar ao destino, deixando a tripulação a dois mil quilômetros da civilização, sem equipamentos de comunicação e sem esperança de socorro. Mas foi justamente nesta situação de perigo, de provação e infortúnio, que a liderança de Shackleton despontou e foi crucial, não apenas para manter o ânimo e a confiança de seus homens, mas também por levá-los, todos, vivos e em boas condições físicas e emocionais de volta a seus lares.
De fato, Shackleton reunia um conjunto de características de liderança que raramente são encontradas numa única pessoa. Seu talento de líder manifestava-se desde a escolha de sua equipe: recrutou, para a expedição à Antártida, profissionais experientes, que fossem entusiasmados pela expedição e que demonstrassem lealdade e, sobretudo, otimismo e bom humor.
Também foi muito competente em criar um espírito de equipe. Em vez da arrogância, preferia o diálogo. Era acessível à sua tripulação. Dava importância às preocupações de seus comandados e os mantinha informados sobre os assuntos do navio. Independentemente da posição, todos eram tratados com igual respeito. Para quebrar hierarquias, todos os tripulantes, inclusive os oficiais, tinham de realizar as tarefas menos nobres como lavar o chão e manter o fogo das fornalhas. Com isso, conseguia criar um ambiente de camaradagem e solidariedade entre aquela heterogênea tripulação, que incluía experientes comandantes, rudes marinheiros e obstinados cientistas. O seu sucesso como líder tinha muito a ver com seu talento para lidar com essa diversidade de temperamentos.
Quanto pior a situação, quanto maior a tribulação e mais iminente o perigo, tanto mais se evidenciava a capacidade de liderança de Shackleton. Nesses momentos, ele sempre expunha a situação real aos homens, sem esconder a dimensão do problema e a dificuldade em encontrar soluções. Mas, por outro lado, transmitia tanta calma e confiança que todos logo se animavam e assumiam parte da responsabilidade pelo seu próprio destino. Conseguia fazer com que seus comandados mantivessem a serenidade e acreditassem na sobrevivência. Na verdade, é exatamente nas piores crises que se revela o valor da liderança.
Quando os planos não estavam dando os resultados esperados e as circunstâncias exigiam um encaminhamento diferente, Shackleton não hesitava em mudar de opinião e lançar mão de uma nova estratégia. Tomava cuidado, no entanto, em deixar muito clara a lógica da mudança, mantendo inabalada sua autoridade.
Mas a característica mais marcante do estilo de Shackleton era a liderança pelo exemplo. Ele jamais exigia de um subordinado uma privação a que ele próprio não estivesse disposto a se submeter. Solicitava bom humor, mas era sempre o mais disposto e animado. Queria solidariedade entre seus comandados, mas não deixava nenhum deles desamparado. Impunha disciplina, mas era o primeiro a sujeitar-se a ela. Colocava a coerência como um princípio e todos compromissos que assumia eram rigorosamente cumpridos. Cobrava firmemente o desempenho de seus subordinados, mas elogiava seus esforços e, quando necessário, corrigia os seus erros, sempre de maneira positiva, sem humilhar ou constranger. Em troca, recebia respeito, confiança incondicional e obediência de seus subordinados.
Conheço inúmeros exemplos de líderes bem sucedidos, mas não lembro de nenhum que reunisse mais qualidades relacionadas com a liderança do que Shackleton. Depois de conhecer a sua biografia e constatar a sua forma diferenciada de interagir com as pessoas, sua capacidade de comunicar-se, sua energia, sua integridade e sua determinação, dá para afirmar sem receio: eis um líder de verdade.
Bem, caro leitor, agora preciso lhe fazer uma pergunta: você já conhece Shackleton?
Não?
Então você precisa conhecer.

Certa vez fui convidado para proferir uma palestra sobre liderança a dirigentes de um órgão público. Iniciei a apresentação falando dos principais conceitos sobre o tema. Em seguida, citei Warren Bennis, um autor que tem uma visão moderna da liderança, e também Sun Tzu, um filósofo chinês que viveu por volta de 500 a.C., cujas concepções continuam surpreendentemente atuais. Depois, procurei apresentar vários exemplos de pessoas que atuaram nas mais diversas áreas, do esporte aos negócios, e se destacaram pela capacidade de liderar.

Ao final, um dos participantes veio falar comigo. Elogiou a palestra e perguntou se eu já havia lido sobre Shackleton. Refleti por uns instantes (minha memória para nomes não é muito boa), mas definitivamente eu não conhecia Shackleton.

- Então você precisa ler, disse-me ele.

Resolvi aceitar seu conselho. Comprei o livro “Shackleton: uma lição de coragem”, de Margot Morrell e Stephanie Capparell, Editora Sextante, e conheci a história deste formidável explorador. É curioso que Ernest Shackleton seja reconhecido e admirado por um empreendimento que fracassou: a expedição à Antártida, de 1914 a 1916, a bordo do navio Endurance, que afundou antes de chegar ao destino, deixando a tripulação a dois mil quilômetros da civilização, sem equipamentos de comunicação e sem esperança de socorro. Mas foi justamente nesta situação de perigo, de provação e infortúnio, que a liderança de Shackleton despontou e foi crucial, não apenas para manter o ânimo e a confiança de seus homens, mas também por levá-los, todos, vivos e em boas condições físicas e emocionais de volta a seus lares.

De fato, Shackleton reunia um conjunto de características de liderança que raramente são encontradas numa única pessoa. Seu talento de líder manifestava-se desde a escolha de sua equipe: recrutou, para a expedição à Antártida, profissionais experientes, que fossem entusiasmados pela expedição e que demonstrassem lealdade e, sobretudo, otimismo e bom humor.

Também foi muito competente em criar um espírito de equipe. Em vez da arrogância, preferia o diálogo. Era acessível à sua tripulação. Dava importância às preocupações de seus comandados e os mantinha informados sobre os assuntos do navio. Independentemente da posição, todos eram tratados com igual respeito. Para quebrar hierarquias, todos os tripulantes, inclusive os oficiais, tinham de realizar as tarefas menos nobres como lavar o chão e manter o fogo das fornalhas. Com isso, conseguia criar um ambiente de camaradagem e solidariedade entre aquela heterogênea tripulação, que incluía experientes comandantes, rudes marinheiros e obstinados cientistas. O seu sucesso como líder tinha muito a ver com seu talento para lidar com essa diversidade de temperamentos.

Quanto pior a situação, quanto maior a tribulação e mais iminente o perigo, tanto mais se evidenciava a capacidade de liderança de Shackleton. Nesses momentos, ele sempre expunha a situação real aos homens, sem esconder a dimensão do problema e a dificuldade em encontrar soluções. Mas, por outro lado, transmitia tanta calma e confiança que todos logo se animavam e assumiam parte da responsabilidade pelo seu próprio destino. Conseguia fazer com que seus comandados mantivessem a serenidade e acreditassem na sobrevivência. Na verdade, é exatamente nas piores crises que se revela o valor da liderança.

Quando os planos não estavam dando os resultados esperados e as circunstâncias exigiam um encaminhamento diferente, Shackleton não hesitava em mudar de opinião e lançar mão de uma nova estratégia. Tomava cuidado, no entanto, em deixar muito clara a lógica da mudança, mantendo inabalada sua autoridade.

Mas a característica mais marcante do estilo de Shackleton era a liderança pelo exemplo. Ele jamais exigia de um subordinado uma privação a que ele próprio não estivesse disposto a se submeter. Solicitava bom humor, mas era sempre o mais disposto e animado. Queria solidariedade entre seus comandados, mas não deixava nenhum deles desamparado. Impunha disciplina, mas era o primeiro a sujeitar-se a ela. Colocava a coerência como um princípio e todos compromissos que assumia eram rigorosamente cumpridos. Cobrava firmemente o desempenho de seus subordinados, mas elogiava seus esforços e, quando necessário, corrigia os seus erros, sempre de maneira positiva, sem humilhar ou constranger. Em troca, recebia respeito, confiança incondicional e obediência de seus subordinados.

Conheço inúmeros exemplos de líderes bem sucedidos, mas não lembro de nenhum que reunisse mais qualidades relacionadas com a liderança do que Shackleton. Depois de conhecer a sua biografia e constatar a sua forma diferenciada de interagir com as pessoas, sua capacidade de comunicar-se, sua energia, sua integridade e sua determinação, dá para afirmar sem receio: eis um líder de verdade.

Bem, caro leitor, agora preciso lhe fazer uma pergunta: você já conhece Shackleton?

Não?

Então você precisa conhecer.

Texto de Por Leonardo José Andriolo

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